Eles são os padres mais idosos da Diocese de Criciúma. Também são os que completam mais tempo de ordenação e de serviço em suas paróquias, onde já foram párocos e atualmente são vigários. Nesta sexta-feira, 1º de dezembro, os padres Manoel Odorico Francisco e Silvestre Junkes celebram seus 60 anos de sacerdócio. O jubileu será comemorado de forma individual: cada presbítero celebrará com seus paroquianos, em datas diferentes. Padre Maneca, como é chamado na Paróquia Nossa Senhora da Salete, em Criciúma, celebrará missa no dia 1º, às 20h, na igreja matriz, no bairro Próspera. Padre Silvestre celebrará com a comunidade da Paróquia São Miguel Arcanjo, em Vila Nova, Içara, no domingo, 03, às 10h. Logo após, às 11h30min, será lançado o livro “Memórias de Padre Silvestre Junkes – sacerdote e operário da obra divina”, de autoria de Elza de Mello Fernandes.

O mesmo serviço à Igreja de Cristo e uma amizade cultivada, de maneira estreita, até hoje. Os caminhos que ligaram os seminaristas Manoel e Silvestre, na década de 40, no Seminário em São Ludgero, permanecem até hoje, com visitas semanais de padre Maneca à casa de padre Silvestre, este último afastado das atividades em razão de sua saúde frágil, há cerca de quatro anos. Padre Manoel está há 56 anos a serviço da comunidade católica da grande Próspera, enquanto padre Silvestre está na paróquia de Vila Nova, que antes abrangia até o litoral, desde que foi criada, em 1973.

O chamado de padre Maneca

“Os primeiros sinais fui sentindo quando criança e se acentuaram quando fui coroinha e ficava na casa paroquial para fazer as ‘voltas’, os trabalhos para a casa e para meu vigário, que era o padre Pedro Ulrich. Em contato com ele, foi crescendo esse desejo de seguir a vocação sacerdotal”, recorda padre Manoel.

Natural de Jaguaruna, onde a padroeira da paróquia é Nossa Senhora das Dores, o presbítero nasceu em 08 de agosto de 1931, nono filho dos 14 gerados pelo casal Odorico João Francisco e Maria Idalina Francisco. Aos 13 anos de idade, foi motivado por padre Ulrich a ingressar no Seminário em São Ludgero. Depois seguiu para o Seminário de Brusque (1946-1950) e para o Rio Grande do Sul, onde cursou Filosofia e Teologia, em São Leopoldo (1951-1956) e Viamão (1957). Na Catedral de Tubarão, foi ordenado padre em 1º de dezembro de 1957, junto aos colegas Silvestre Junkes, Bertilo Schmidt, Antonio Herdt, Francisco Marini e Izidoro Ghislandi, os últimos quatro já falecidos.

Seu lema escolhido de ordenação sacerdotal foi: “Senhor, que as almas te encontrem no meu sacerdócio”. “O que se pede a Deus é que todas as pessoas que, de alguma maneira se aproximam da gente, encontrem muito mais a Jesus Cristo. Que se possa apontar, como João Batista: ‘Eis o Cordeiro de Deus’; indicar que as pessoas devem seguir o Mestre e não propriamente o padre. O padre deve ser um indicador, onde está Ele, está o Cristo”, pontua.

Logo após a ordenação, padre Manoel veio para Criciúma. “Estive três anos e oito meses na Paróquia São José. Dali foi criada esta paróquia (Próspera), em 20 de agosto de 1961. Vim para cá, como pároco. Aqui era capela e eu era ajudante do padre Estanislau Ciseski. Era um dia de trovoada. Dessas trovoadas de agosto, geralmente de manhã cedo, mas ela continuou. Os caminhões da Carbonífera Próspera foram até a Catedral. Chegaram lá buzinando, por volta das nove horas da manhã. O padre Estanislau e eu viemos num Aero Willys, carro de Gracioso Furlanetto, que era taxista do ponto ao lado da matriz. Como ele tinha aquele veículo, se ofereceu para nos trazer e viemos embarcados até ali perto da Praça da Chaminé. Estavam calçando esta rua, e dali viemos a pé, ao som da Banda Filho do Mineiro. A subida desta ladeira não era calçada e estava cheia de lama. Estava muito difícil para a gente subir e no meio da subida escorreguei. Uma pessoa disse: ‘Padre, vamos nos abraçar, porque aí é mais fácil’, e de fato nos demos os braços e conseguimos subir. Quando cheguei à frente da igreja, padre Paulo Petrucelli limpou os sapatos então cheios de barro. Naquela subida, também havia uma pessoa perto do batistério, que disse: ‘Padre Manoel, com chuva é bom, porque pega bem!’ E ela profetizou mesmo, pegou!”, recorda, aos risos. “Celebramos aquela tomada de posse com chuva e tudo, e repito: O que levou adiante foi sempre o povo evangelizando, o povo colaborando, participando e fazendo a sua história. Está fazendo até hoje e vai continuar a fazer, porque nós passamos, mas a Igreja de Deus fica!”, acrescenta.

Padre Manoel relata que, quando tomou posse, lembrou muito bem das orientações dadas por padre Estanislau e pelo seminário. “Que a gente sempre procurasse ter a maioria da população ao lado dos paroquianos e que, para isso, a gente delegasse funções para que eles participassem. Nossa missão como sacerdotes era de pregar às multidões, mas especialmente, cuidar da formação das lideranças, para que elas pudessem realizar o trabalho no meio do povo”.

Assim, conforme o padre, a Legião de Maria foi a primeira a ser fundada na Paróquia. “Em torno do estudo bíblico e do trabalho da Legião de Maria, que é de visitar as famílias, começamos o apostolado e graças a Deus, floresceu!”. Segundo ele, a perseverança transformou-se em alegria, com o Reino de Deus se realizando através de pequenas funções e trabalhos pastorais feitos com regularidade. “E procurando estar sempre aberto ao novo, porque quando nos fechamos num trabalho, pensando que somos os melhores, por nada nos tornamos sinal de morte. Não somos mais sinal de vida, porque nos fechamos ao parecer e à opinião dos outros, absolutizamos o que fazemos; quando abertos, sempre podemos aperfeiçoar o que estamos fazendo”, garante o padre, na sabedoria de seus 86 anos de idade.

Ainda de acordo com Padre Maneca, sua relação com o povo de Deus tornou-se relativamente fácil, quando de sua chegada, visto que na Próspera já havia as Pequenas Irmãs da Divina Providência, que trabalhavam no Serviço Social do SESI. “Elas implantaram uma base muito boa. As famílias tinham muita confiança nessas irmãs e isso favoreceu o apostolado. Eu, aqui chegando, procurei ligar-me muito às crianças. Naquela época, as famílias eram numerosas. A gente saía a benzer as casas e a criançada toda acompanhava. Também gostavam muito de santinhos e com isso criou-se uma familiaridade. Conseguindo a amizade com as crianças, a amizade com as famílias, com os pais era mera consequência”, conta padre Manoel sobre os primórdios da paróquia que, na época, concentrava seus paroquianos nos arredores da igreja, onde só existiam os bairros Próspera e Nossa Senhora da Salete, antes chamado de Sete.

Uma das realizações de padre Manoel é estar junto de seus paroquianos. “Eu caracterizo a Próspera como um lugar de pessoas muito solidárias; um pessoal muito bom para se tratar e que acolhe qualquer pedido da gente. Se a gente faz uma conclamação, estão todos prontos para colaborar. A Próspera é uma grande família. Sinto-me feliz quando posso ouvir esse povo e procuro, de alguma maneira, apontar caminhos, colocar indicadores para as pessoas terem uma vida mais liberta, saudável e feliz, sempre colocando a Palavra de Deus como marco de iluminação, porque a Bíblia, em si, não traz respostas prontas, mas à luz da Palavra buscar aquilo que se deseja”, afirma o padre, que durante todos esses anos se esmera no atendimento de confissões e orientações aos paroquianos.

“O importante é que nesses quase 54 anos de sacerdócio, consegui perseverar, com acertos e desacertos, defeitos e virtudes, e com a vontade de continuar servindo. O que dá muita alegria principalmente neste tempo, em que já se está com uma idade avançada, é participar de uma celebração eucarística vendo o povo cantar e rezar com aquela unção que lhe é própria. Isso dá uma alegria muito grande, pois dá um quê de mistério, de que o Senhor realmente está ali presente, o que me alegra muito e preenche ainda mais a vida da gente”, observa.

A vocação de padre Silvestre

O amigo e colega de sacerdócio de padre Maneca, padre Silvestre Junkes, celebra em ação de graças duplamente neste domingo, uma vez que no próximo dia 14 completa 91 anos de vida. Apesar das dificuldades impostas em razão da saúde, padre Silvestre se mantém alegre e ainda celebra, aos sábados, a missa na capela de sua residência.

Nascido em Forquilhinha, Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em 14 de dezembro de 1926, padre Silvestre é o quinto dos dez filhos de Edwiges Borgert e Davi Junkes e teve nos irmãos mais velhos, Bernardo e Alfredo, o espelho para assumir a vocação ao sacerdócio. Ingressou no Seminário em São Ludgero aos 16 anos de idade, com vontade contrária a do pai, que desejava que o filho fosse médico. Padre Silvestre só sabia falar alemão e muito pouco de português, por isso conta que passou por muitas dificuldades em sua caminhada seminarística. Antes de ingressar no seminário teve aulas com os professores Adolfo Back e Jacob Arns e, mais tarde, com cinco religiosas que vieram da Alemanha, cujos nomes recorda até hoje e ainda guarda o crucifixo que ganhou de uma delas no dia de sua ordenação.

Com o lema “Nossa Senhora, abençoa o meu sacerdócio”, padre Silvestre confiou à Mãe de Jesus o seu ministério e por meio de sua intercessão encontrou forças para vencer todos os desafios. “Agradeço pela vida, dom de Deus. Vou fazer 91 anos e nunca pensei chegar até aqui. Quando fiquei padre, meu pároco, que era franciscano, de certa idade, depois da missa solene disse para mim: ‘Parabéns, padre novo!’ Eu respondi: ‘Eu não sou novo, estou com 31 anos’. Ele olhou para mim e disse: ‘Padre, para casar e para ficar padre a gente nunca é velho demais!’”, conta padre Silvestre, com uma risada.


O presbítero se diz grato pela caminhada, apesar dos percalços vividos ainda dentro do seminário que, com fé, foram vencidos. “Pensei em desistir, mas depois vi que queria ser padre mesmo. Assumi e enfrentei lugares difíceis. As três primeiras nomeações que tive, foram nomeações que nunca sonhei na minha vida. A primeira foi para Laguna. Quando fui ordenado padre, jamais pensei em ser vigário da Paróquia Santo Antonio dos Anjos. Laguna era considerada naquele tempo a cidade mais culta do Sul, senão do Estado. E antes do almoço da ordenação, eu já sabia, porque um secretário me contou durante a volta da catedral: ‘Olha, prepara a canoa!’ e então eu já sabia que era Laguna, porque lá havia seis capelas para chegar de canoa. Depois de um ano, fui nomeado pároco de Armazém, onde permaneci apenas 18 dias. Um colega havia sido nomeado para Braço do Norte e não aceitou, então o bispo me transferiu para lá. Outra paróquia que jamais sonhei. Braço do Norte era considerada a paróquia piloto da Diocese de Tubarão, grande e bem organizada, as pastorais caminhavam bem, uma cidade que estava crescendo. Depois, fui para Rio Fortuna e retornei à Armazém. Até que fui solicitado por um colega para auxiliar na formação no Seminário de Tubarão. Lá permaneci três anos, cuidando da formação espiritual do grupo dos maiores e dando aulas de Liturgia e História da Igreja. Na época, havia 220 jovens no seminário. Assim, tive que cuidar e muitas vezes resolver as vocações”, recorda.

Padre Silvestre já soma 52 anos em Içara. Chegou em 1966, para auxiliar o irmão, padre Bernardo, como vigário paroquial na Paróquia São Donato, onde ficou sete anos e meio. “Vim com a promessa do bispo de ser pároco de uma paróquia desmembrada de Içara. Em janeiro de 1973 se deu a criação da Paróquia São Miguel, de Vila Nova e, em setembro do mesmo ano, assumi a paróquia. Estive a frente durante 20 anos e por motivos de doença, Dom Hilário Moser me pediu se eu queria ser transferido ou se queria um auxiliar. Passei a ser vigário paroquial e padre Angelo Galato assumiu como pároco na época”, conta.

Padre Silvestre recorda que quando assumiu a Paróquia de Vila Nova, encontrou comunidades com estruturas físicas precárias, mas sempre pode contar com o apoio da comunidade, que o ajudou a concluir a igreja, construir a casa e o salão paroquial, entre outros. Enquanto as obras eram encaminhadas, o presbítero dormia na sacristia e fazia suas refeições fora, uma vez que nem cozinha havia no local. “As pessoas questionavam: ‘Por que o senhor quer fazer um salão desse tamanho?’ Eu disse: ‘Festa de São Miguel é costume chover! Existe a enchente de São Miguel, por isso, vamos fazer um salão bem grande, porque se chover o povo pode vir, pois tem aonde se abrigar’”, recorda.

Assim como padre Manoel, padre Silvestre, há tanto tempo em sua paróquia, tem um carinho especial por seu povo. “Eu gosto de Vila Nova. O povo sabe que as paróquias, todas elas, tem seus problemas, dificuldades e desafios. Umas de um jeito, outras de outro. Mas penso que o padre tem sempre que olhar aquilo que Jesus diz na Sagrada Escritura: ‘Vim para servir e não para ser servido’. Devemos caminhar por aí. Estar a serviço da comunidade e servir mesmo nas coisas pequenas. As pessoas nunca esquecem. Certa vez uma senhora me perguntou: ‘O senhor gosta de visitar os doentes? O que o senhor encontra?’ São diferentes idades, com diversos problemas e é interessante ver como as pessoas pensam, o que falam e que jamais esquecem que Deus passou por ali. Elas sempre tem colocações sobre suas doenças, sobre o modo como aceitam... Eu gosto muito disso, porque ensina a gente a viver. Às vezes nos queixamos enquanto caminhamos, nos alimentamos, vivemos bem e outras pessoas estão há muitos anos no fundo de um leito. Quanto à nossa caminhada, nós padres temos três pontos importantes que devemos levar com muita seriedade: o primeiro é a Eucaristia, ponto alto de nossa fé. O segundo é, sem dúvida, sermos evangelizadores. Temos muitos mestres talvez, no mundo de hoje, mas devemos deixar de ser mestres e sermos evangelizadores. O terceiro é para todo mundo e muito mais para o padre: a oração. Oração é fundamental”.

 

 

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Bibiana Pignatel
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